.Art.13º, n.º da Constituição

"Ninguém pode ser privilegiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça,língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual"
Sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

Porque correm os Homossexuais?

 

               A coisa ainda

               está na mesma   

 

    Mais uma vez fui ao baú das revistas que estão guardadas em uma caixa de cartão ainda a quando da minha mudança de habitação e deparei com este texto que me agradou de sobre maneira, assim, aqui fica para que os vossos neurónios possam trabalhar mais um pouco.

    Pouco ou nada havia a alterar literariamente a não ser no tempo, assim, ficou na mesma e dou os meus parabéns ao Paulo Gomes que não conheço mas que gostava de conhecer. 

“ Vivem em duplas existências, em caminhos paralelos, cheios de duplicidades, de duplos sentidos. Cliché? Certo, os gays portugueses resumem-se ainda a um enorme cliché de identidade ora exuberante, ora fechada em silêncios ou sussurros, ora em pequenos guetos com bandeiras culturais. Não correm a caminho de manifestações anti-rácicas Avenida da Liberdade abaixo, não se reúnem em parques ao domingo à tarde para debater violências e discriminações homofónicas, não promovem abaixo assinados contra separatismos sexuais, morais, políticos que os afectem enquanto entidade sexual.

Há trinta anos atrás, levantaram a perna e parecia que alguma coisa ia acontecer. A revolução política ainda estava fresca nas memórias, o momento parecia indicado para se tomar posição e destaque hastear a bandeira da homossexualidade lusitana.

Em Braga falava-se da primeira associação gay, em Lisboa preparavam-se os primeiros encontros - e julgo que os últimos -, em Janeiro de 81, do Colectivo de Homossexuais Revolucionários na Comuna. Como afirmou na altura Isabel Leiria, uma das iniciadoras do CHR "Não se trata [não se tratava] de fazer a apologia da homossexualidade, mas de criar um movimento de reconhecimento da homossexualidade como realidade humana, de despenalização e aceitação social" (in Raiz e Utopia). Os ânimos eram efervescentes e era muita a vontade de fazer alguma coisa. Muitos dos nomes ligados às artes e ideias assinavam este movimento e a corrida parecia ir começar. Mas tudo correu à velocidade do silêncio.

Um pouco à semelhança das próprias histórias pessoais contadas nas mesas do café, com o olhar direito de quem desafia o castigo dos outros. Entre altas vozes e silêncios, as histórias repetem-se, permanecem inalteráveis ao longo dos tempos. Os começos fazem-se como profecias inevitáveis. Com os primos, os amigos de infância, entre brincadeiras inofensivas, entre jogos de quem-faz-sem-querer, sabendo. A brincar ao quarto escuro, descobrindo o parceiro pelo tacto, em falsas guerrilhas com toques naïves no corpo que já se diz desejar. A tomada de consciência repete-se de história para história: "Sempre me vi a desejar os amigos de escola, a gostar de tocar no corpo dos meus amigos de brincadeira", "desde que me lembro que me excitaram sempre mais os corpos dos rapazes do que os das raparigas". Nada de novo. Tão banal que se ouve sem surpresa. "Tiveste a tua primeira experiência com quem? Com o teu primo?" Claro. Tão claro como o reconhecimento tardio das preferências, o terror de contar aos pais, o pânico de partilhar as certezas no trabalho. Tão certo como rivalizar o prazer de aventuras sucessivas e efémeras com utopias de amores para sempre, definitivos. Corre-se depressa, à velocidade da luz. Fixado num amor, em excessos de dor e de desilusão, em sublimações, em sucessos profissionais, em revoltas, mas sempre depressa. Correm. Para o refúgio da casa, para o casamento mascarado, para a denúncia de erros paralelos, para compensações de outros níveis, para o prazer directo e imediato, sem custo.

Como se tratasse de sobrevivência, como se procurassem um equilíbrio difícil onde julgam existir um desequilíbrio. São poucos os que vivem com prazer a homossexualidade percebida, querida e aceite. Com normalidade. Ao contrário dos heterossexuais? Claro que não; apenas a uma velocidade diferente, como se a "anormalidade" incutida por anos de opressão moral e cristã obrigasse a um redobramento dos gastos investidos e, consequentemente, a um redobramento dos ganhos e das perdas.

O sofrimento, brada-se a dobrar, a felicidade exprime-se em demasia, os amantes querem-se de perder o fôlego, a solidão sente-se como castigo, como desígnio de deuses. Não se alcançam, nunca. Daí a sua genialidade, daí o seu sentimento de perdição: negado mas sentido entre as quatro paredes, entre as ausências, entre o silêncio pesado. O inconfessável. Ainda hoje, ainda hoje quando a noite das confissões possibilita, de ânimo leve, sem culpa, a vivência plena da homossexualidade. Ainda assim se corre. Uma das surpresas na TF1, o canal de maior audiência da televisão francesa, foi, há três meses atrás, o programa sobre o tema "O meu filho é homossexual" inserido na nova série A Vida em Família. Sentado perante 8 milhões de espectadores, às 22H30 de uma noite que nada teria de anormal senão a hipótese dos seus pais estarem a assistir à emissão, Eric - um jovem de 19 anos - vai jogar o papel de filho homossexual. Mesmo a horas tardias o jogo não era fácil e a tarefa era tudo menos de criança. Talvez os pais o vissem no plasma, talvez não. Fosse como fosse, a questão era esta: como jogar esse jogo, como chegar lá? Mesmo hoje, quando tudo parece querer mudar, mesmo para quem se reivindique liberal em questões de sexo, ainda é de ficar surpreendido com a coragem deste passo, de uma franqueza quase comovente. Provocador? Nem pensar. O tom era calmo, sem apelos nem desesperos. Falava-se do inominável apenas. Da lei do silêncio, do "se disso não falarmos, isso não existe". Eric apenas queria mostrar que era como toda a gente. Ou, como ele começaria por dizer, que "essa pequena particularidade, (que ele tinha) cada um tem as suas". Não se esquecia que "essa pequena particularidade" ainda choca, ainda mexe com a moral e os preconceitos de quem não despregava os olhos do écran; não tinha nenhuma dúvida de que os seus pais iriam reagir mal, que iriam pensar que não têm um filho como os outros, que "me considerarão antes de mais como um homossexual e só depois como filho". Mas quis falar nisso.

 Correr para o écran, olhá-lo e dar a conhecer as suas melancolias intermináveis, o seu lidar solitário com essa experiência, de quem não encontrou outra solução senão a de suportar tudo de boca fechada. Justifica-se: "Como isto [a confissão] vai sair menos directamente, é mais simples para mim e vai obrigar os meus pais a reagir." E reagiram. A mãe confessou que sentiu as pernas tremerem e o chão desaparecer debaixo dos pés; o pai pensou nunca mais conseguir ultrapassar tamanha vergonha. E o programa continuou. Sucederam-se os testemunhos, as confissões facilmente nomeáveis, as indignações francamente reprováveis. Uma atmosfera trágica? Sim, em parte, mas essencialmente banal: tragicamente banal. Ridícula. A surpresa vem - claro - das explicações da homossexualidade, dos conselhos. Ai Jesus! A exemplo, Madame Marie Saint Didier - autora do press release que acompanhava o programa - na sua mensagem aos filhos homossexuais, fez chorar as pedras da calçada. Dizia ela: "Dirigindo-me a eles, queria fazê-los reparar que ao optarem assim rejeitam metade da humanidade [se fosse na Austrália seria 4/5 da população, mas ela não queria ser tão trágica, metade já servia para lhes abrir os olhos!]. Para mim, um casal é complementar. Ora num casal homossexual existe um olhar ao espelho. Quero com isto dizer que não os repudie, porque todos nós somos feitos de um homem e de uma mulher. Todos nós temos uma parte masculina e outra feminina em nós mesmos [não diga!]. Logo, está fora de questão recusá-los.

Mais do que nunca são nossos filhos, pois estão em dificuldade. “Precisam de nós, do pai e da mãe." Pergunto-me: e o Deus-Pai em tudo isso? Porque correu Eric?”


in K, nº 2, Porque correm os Homossexuais, Paulo Gomes, Novembro de 1990

 

Ps: Paulo se leres este meu bloge, desculpa o meu atrevimento, mas não podia deixar de publicar este artigo.

Espero um teu contacto

Nelson Camacho D’Magoito

sinto-me: com pica
a música que estou a ouvir: Mister Gay
publicado por nelson camacho às 02:14
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3 comentários:
De piruças a 25 de Novembro de 2007 às 14:29
com quw então não sabes porque correm oos gays?
fala comigo que eu digo-te


De Apaixonado a 21 de Dezembro de 2007 às 16:16
O Piruças disse que dizia ao autor deste blog a razão porque correm os gays. Porque o autor não se esconde no anonimato , gostaria de saber se recebeu o tal conhecimento do nosso amigo Piruças que deve ser um franco conhecedor do mundo gay. Como ele andará nesses meandros? será gay?. Pelo que tenho lido o autor deste blog, não é, mas sim um conhecedor do mundo que nos rodeia, transformando conhecimentos em formas literárias que todos nós gostamos de ser mas que entretanto ficamos no anonimato. Se um dia experimentar o outro lado, gostaria de experimentar contigo Nelson.
Deves ser o máximo
Um onde mais gostares.
Vou telefonar-te para ser teu amante
Apaixonado


De nelson camacho a 16 de Novembro de 2011 às 12:27
Amigo apaixonado é obvio que o piruças " não se apresentou para me explicar a razão dos gays correrem, simplesmente porque ele é daqueles que vai para o engate no "Finalmente" e esses, nós sabemos como são. Basta um jantar, uma ceia num qualquer quarto e querem é ser comidos às escondidas. Quanto a ti, gostei do teu comentário. Agora que estive ausente em França durante algum tempo e aprendi mais pode ser que nos encontremos. Podes telefonar-me para troca de ideias . Um abraço do Nelson Camacho (Eu não me escondo efectivamente pois não devo nada a ninguém) já tenho o


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